Eixos Temáticos

Rui Gama, Aquiles Marreiros, Mário Vale

A coesão, no contexto da União Europeia, dever ser entendida no quadro da diversidade económica, social e territorial. Incluída no Tratado de Lisboa (2010), assumiu-se como um novo paradigma de desenvolvimento do território europeu. Visa a promoção do desenvolvimento harmonioso dos territórios, valorizando a sua diversidade e complementaridade, num duplo sentido: coesão económica e social e dimensão territorial.

No quadro Europeu, a política de desenvolvimento regional e urbano, ou seja, a política de coesão, tem que ser entendida no contexto das mudanças observadas nas regiões, exigindo o envolvimento de diferentes disciplinas académicas e formas de pensar, conceber e analisar as dinâmicas de crescimento e os processos de desenvolvimento registados.

Dada a diversidade dos territórios, este eixo temático reúne contribuições centradas no estudo das trajetórias e dos processos que explicam a capacidade desigual de resposta aos novos desafios societais e para a definição de caminhos que permitam uma adaptação a mudanças cada vez mais rápidas e constantes.

Além das questões de governança, atores, instrumentos e escalas das políticas de coesão e desenvolvimento regional, estimula-se a apresentação de resumos de comunicações que foquem os cinco objetivos da política de coesão e desenvolvimento regional europeia para o período 2021-27: Europa mais inteligente (inovação, digitalização e transformação económica); Europa mais verde e livre de carbono (transição energética, energias renováveis e luta contra as mudanças climáticas); Europa mais conectada (transporte e redes digitais); Europa mais social (emprego de qualidade, educação, qualificações, inclusão social e a igualdade de acesso aos serviços de interesse geral); Europa mais próxima dos cidadãos (estratégias de desenvolvimento lideradas localmente e desenvolvimento urbano sustentável), só por si, potenciadores do surgimento de novas abordagens territoriais e novas geografias de atuação.

Neste âmbito, ganham relevância as abordagens experimentadas pelas Estratégias de Especialização Inteligente, que encontram nos territórios e nos seus ativos, espaços privilegiados para a descoberta empreendedora.

Paulo Carvalho, Helena Madureira, Margarida Pereira

Num tempo de desafios e mudanças impostos pela pandemia, coincidente com o final de um ciclo de execução de políticas públicas e o início de uma nova fase que se pretende não só de adequada programação como também de operacionalização, é urgente refletir uma transição equitativa, justa e verde.  Em função da emergência que vivemos, o ordenamento do território, com a sua complexidade organizacional, diversidade de instrumentos e pluralidade de abordagens, constitui um domínio privilegiado para analisar os contributos e as perspetivas da Geografia, a partir de resultados de investigação sobre dinâmicas, processos, tendências territoriais e soluções credíveis para o desenho de novos caminhos de desenvolvimento sustentável, centrados em particular nas seguintes áreas temáticas:

  • Balanço das políticas e intervenções em 2014-2020
  • Desafios para as políticas públicas em 2021-2027
  • Novos instrumentos e prioridades de gestão territorial
  • Participação pública e governança territorial
  • Sustentabilidade urbana no pós-pandemia
  • Dinâmicas e oportunidades em territórios de baixa densidade
  • Ordenamento do Território e mudança climática: estratégias multi-escalares de adaptação.

José Gomes dos Santos, Rui Pedro Julião, Eusébio Reis

Os Sistemas de Informação Geográfica (SIG) há muito deixaram de ser encarados na perspectiva – deveras redutora – que os classificava como meras ferramentas. Numa perspectiva mais restrita, assim é, de facto, mas, uma visão mais ampla e ajustada do conceito de SIG (mais limpa e mais clara quando se lê e interpreta o acrónimo de língua inglesa – GIS), permite perceber que ao “G” pode ser atribuído o termo “Geográfica” mas, também, o termo “Geoespacial” – que tem vindo a conquistar adeptos de forma massiva um pouco por todo o mundo. Esta constatação que, internamente, para os geógrafos e para a Geografia, pode significar uma perda de “soberania” semântica e conceptual sobre um conceito que, indubitavelmente, encerra um cariz geográfico tem, no sua matriz, uma dimensão transdisciplinar que legitima a “captura” por parte de outros investigadores e torna mandatória a necessidade de partilha e de diálogo entre os diversos profissionais que estudam e desenvolvem algoritmos para aplicação em SIG ou, apenas, utilizam as funcionalidade SIG, seja para efeitos de investigação científica/académica e/ou aplicação aos diversos domínios das dinâmicas territoriais nas quais se enquadram o Ambiente e o Ordenamento do Território mas, também, a Saúde, o Direito, Economia e Gestão – Estudos de mercado, ou a Inovação e o Empreendedorismo, entre muitos outros. Os significados atribuíveis ao “I” derivam desde o conceito de “Informação” ao de “Inteligência” geográfica, algo que se justifica pelo franco desenvolvimento de estudos de (Geo)computação que envolvem algoritmos resilientes com funções de auto-aprendizagem (Resilient Back Propagation Algorithm – Redes Neuronais) entre outras funcionalidades que surgem, por exemplo, na directa dependência da evolução da Inteligência Artificial (Artificial Inteligence) e da Aprendizagem de Máquinas (Machine Learning). A rota dos possíveis significados de cada uma das letras do acrónimo permite, por fim, perceber o alcance do progresso explosivo das “Data Sciences” e, aqui, encontramos plausibilidade para o reconhecimento de que o “S” que, inicialmente, era atribuído ao conceito de “Sistema”, depressa passou a ser considerado noutras valências, mais amplas, como Sociedade, Estudos e Ciências (Society, Studies and Sciences).

Os territórios são organismos dinâmicos cuja ontogénese, com maior ou com menor dificuldade, pode ser analisada permitindo identificar padrões evolutivos. Esta possibilidade “é chão que dá uvas” quando se torna possível introduzir, em ambiente SIG, as variáveis consideradas explicativas das dinâmicas territoriais, variáveis passíveis de parametrização e geoprocessamento. Os estudos de modelação espacial desenvolvidos em SIG (Geossimulação) são uma das valências mais visíveis e, porventura, das que revelam maior valor operacional e aplicado dos SIG, ao permitirem a elaboração de modelos predictivos aplicáveis às mais variadas dimensões das dinâmicas da sociedade e às dinâmicas territoriais (l.s.). As consequências do caminho percorrido pela Humanidade, na sua incontornável rota de colisão com a dinâmica do Planeta enquanto fragmento colaborativo num “Cosmos” subordinado ao inexorável percurso do Tempo, conduziram ao acelerar de ritmos naturais da alterabilidade natural do clima  e dos oceanos, perceptível na maior frequência, diversidade, ubiquidade e grau de severidade de manifestações meteorológicas extremas, que se traduzem na exposição dos territórios ao “Risco” e à “Catástrofe”. Resiliência e mitigação, para além de chaves primárias, de ignição para soluções de Early Warning, devem passar a constituir mecanismos robustos de interiorização individual e colectiva, porque um território inteligente, entre outros aspectos, obriga a uma governança inteligente e proactiva capaz de imortalizar soluções de metabolismo territorial, sociedades e cidadãos resilientes e eficientes – capazes de colocar em prática soluções e procedimentos com todos os recursos disponíveis – incluindo a inteligência – (capacities e coping capacities),  sempre ao serviço do equilíbrio territorial. Tal pressupõe uma relação win-win entre o Homem e a Natureza sem a qual deixa de fazer sentido o conceito de “Território Inteligente”.

Temas em debate neste Eixo Temático

  • Geodados; aquisição, geoprocessamento e aplicações.
  • Geossimulação, Recursos e Riscos (Naturais, Tecnológicos e Mistos).
  • Investigação em SIG: Geocomputação e programação.
  • Os SIG aplicados a problemas de saúde pública.
  • Os SIG aplicados a problemas de Geodireito.
  • Interdisciplinaridade em SIG.
  • SIG: que futuro?

Lúcio Cunha, Luca Dimuccio, Alberto Gomes

Embora hoje os estudos de Geomorfologia tenham um caráter fortemente interdisciplinar, não deixam, mesmo assim, de ser uma parte importante da Geografia Física, pelo significado de que revestem para a compreensão das dinâmicas e das caraterísticas da paisagem, pelo dinamismo que imprimem aos processos de apropriação territorial, pelo que significam na compreensão e gestão da maior parte dos riscos naturais e, mesmo, pelo significado cultural e patrimonial que algumas das formas de relevo assumem. Por isso, a Geomorfologia é importante para todos os que estudam o Sistema Terra, os seus ambientes e os seus territórios de um ponto de vista mais naturalista ou mais social, para espaços mais rurais ou mais urbanos, a escalas de pormenor e de conjunto, numa perspectiva mais teórica ou mais aplicada.

Para quase todos os processos ambientais, ecológicos, culturais, sociais e económicos que se desenvolvem à superfície da Terra, as formas de relevo desempenham importantes papeis e, por isso, convidamos todos aqueles que dedicam o seu esforço científico à compreensão da evolução espacial e temporal das formas de relevo e dos processos que nelas ocorrem a apresentar os seus trabalhos neste tema 4 – Geomorfologia, recursos naturais e paisagem. O seu contributo será decisivo para mostrar a importância dos estudos geomorfológicos no compromisso que a Geografia, enquanto Ciência do Território, estabelece entre a Natureza e a Sociedade, na busca de soluções para os problemas e desafios dos tempos que vivemos e que obrigam à construção de alternativas socialmente mais justas e ambientalmente mais sustentáveis.

Luciano Lourenço, António Vieira, José Zêzere

Os riscos, ao fazerem parte do nosso quotidiano, manifestam as suas consequências na sociedade e no ambiente, pelo que os três estão intimamente ligados. A Geografia está particularmente bem posicionada para estudar as relações existentes entre eles, e, sobretudo, para nos alertar para a importância de tomarmos consciência dos riscos que corremos, o que leva à perceção do risco e, em consequência, nos foca na sua análise, a qual, por sua vez, conduz à previsão e prevenção do risco, a única forma de reduzir as consequências das manifestações de risco. Estes são alguns dos muitos aspetos que será possível abordar num tema abrangente que trata dos riscos e das suas relações com a sociedade e o ambiente.

Albano Figueiredo, Ana Monteiro, Maria José Roxo

As mudanças ambientais registadas no passado recente, bem como as previstas em projeções futuras, representam um desafio importante para as sociedades atuais, perspetivando a necessidade de adaptação a novos contextos. Esta capacidade de adaptação está dependente do nível de desenvolvimento, o que pode pressupor limitações na capacidade para operacionalizar medidas concretas a diferentes escalas, até pela diversidade de escalas geográficas implicadas.

No âmbito deste eixo temático pretende-se apresentar e discutir novas perspetivas metodológicas e resultados associados à avaliação e monitorização de alterações ambientais em diferentes contextos geográficos e âmbitos temáticos:

  • eventos climáticos extremos e impactes associados
  • tendências climáticas recentes e efeitos nos sistemas naturais
  • impactes ambientais decorrentes de atividades humanas
  • avaliação de riscos de natureza climática
  • cenários climáticos futuros e análise de impactes
  • avaliação da capacidade de adaptação em contexto de mudanças climáticas
  • disponibilidade e gestão de recursos hídricos em contextos de mudança climática
  • planos de adaptação às alterações climáticas: da escala local à escala nacional

Paulo Nossa, Alina Esteves, Maria José Caldeira

As dinâmicas populacionais são condicionadas por um conjunto de fatores que estão associados à capacidade de fixação gerada pelos territórios, seja por via de políticas públicas, dinâmicas de investimento inovadoras, qualidade de vida e sustentabilidade que, conjuntamente, assumem-se como elementos de atractibilidade, relevantes para a fixação de “novos residentes”. Por outro lado, o envelhecimento populacional, associado a desigualdades de desenvolvimento, tem potenciado movimentos repulsivos que afetam a coesão de partes significativas do território nacional. Este eixo acolherá comunicações que evidenciem capacidade de análise e discussão destas problemáticas, tendo as dinâmicas populacionais como elemento central, contribuído para expor o compromisso que a Geografia pode ter na interpretação das mudanças territoriais.

Paula Santana, Eduarda Marques, Paula Remoaldo

À semelhança de outras pandemias no passado, a COVID-19 está a ter um impacto profundo na saúde e no bem-estar da população, ao qual se juntam os custos sociais e económicos dos esforços para travar a pandemia, com o previsível agravamento das desigualdades sociais e territoriais. As medidas de contenção do vírus, a par com as de minimização dos seus impactos, são aplicadas num ambiente de grande incerteza e complexidade. Os impactos serão particularmente graves para os grupos mais vulneráveis: não apenas devido ao potencial maior risco de vulnerabilidade à infeção mas também pela falta de condições e recursos para lidar com as medidas de confinamento e outras que afetam a vida das populações. Além disso, a pandemia veio expor e, potencialmente, reforçar as iniquidades em saúde, as quais seguem padrões geográficos de desigualdade estrutural das condições socioeconómicas e ambientais em que as pessoas vivem – os chamados determinantes sociais da saúde.

Enquanto o setor da saúde pública desempenha um papel primordial na prevenção, controlo e tratamento da infeção, as respostas aos impactos socioeconómicos e às desigualdades nos determinantes da saúde estão a cargo de diversos outros setores e áreas científicas, onde se incluem a geografia, o ordenamento do território e o urbanismo, por exemplo. As autarquias são atores-chave na necessária adequação das respostas aos contextos locais, pelas competências que detêm em várias áreas de intervenção prioritária (apoio social, medidas sanitárias, instrumentos financeiros) e pela responsabilidade local na gestão de emergências. Os decisores autárquicos estão, também, bem posicionados para preparar o território para o pós-COVID-19, pensando estrategicamente os problemas, corrigindo a distribuição desigual de recursos, adequando o contexto às necessidades reais das populações. O desenvolvimento de medidas que promovam a justiça territorial (no presente e no futuro) exige a integração do conhecimento geográfico para conhecer, de forma mais ampla, as causas das desigualdades existentes na saúde e no bem-estar e avaliar os seus impactos na saúde, a múltiplas escalas. Mais do que nunca, a saúde deve ser entendida como uma questão espacial.

O que se pretende com esta sessão é trazer à discussão temas cruciais para o futuro dos indivíduos e das comunidades, para as quais a geografia têm especial vocação:

  • Impacto das desigualdades territoriais e socioeconómicas nas doenças pandémicas e outras;
  • Padrões espaciais e temporais de doença e de mortalidade por doenças infeciosas, incluindo a COVID-19;
  • Comportamentos e saúde mental em tempos de crise económica e financeira;
  • O papel das políticas públicas na promoção de territórios saudáveis, incluindo a ação no período pandémico;
  • As transformações dos territórios no período pós-pandemia.

São chamados a apresentar e discutir estes temas alunos, investigadores e profissionais de várias áreas científicas: geógrafos, urbanistas, epidemiologistas, médicos de saúde pública, entre outros.

Fátima de Castro, Jorge Malheiros, Fátima Matos

As “Cidades e as Comunidades Sustentáveis” são um dos desafios que as Nações Unidades lançaram aos Estados, para ser desenvolvido até 2030 (ODS 11). Pretende-se que as populações possam ter acesso a habitação acessível e segura, assim como beneficiar de um planeamento inclusivo, sustentável e saudável. É necessário dar prioridade a um espaço urbano que materialize o equilíbrio entre a dimensão do ambiente, das infraestruturas e da sociedade, assegurando um justo acesso aos recursos da cidade. Além disso, urge pensar e propor processos capazes de antecipar e mitigar situações de risco a que as comunidades urbanas mais vulneráveis estão expostas. Tendo como mote tais princípios, este eixo pretende ser um espaço de análise, de reflexão e de debate sobre temas relativos às dinâmicas geográficas relacionadas com as “cidades, [a] habitação e [a] inclusão social”, nomeadamente:

  • Planeamento, políticas públicas e coesão urbana
  • Direito à cidade e justiça espacial
  • Habitação: da segregação à inclusão
  • A gentrificação dos espaços urbanos
  • Territórios urbanos saudáveis e qualidade de vida
  • Riscos sociais e populações vulneráveis na cidade
  • As cidades e a habitação depois da pandemia

Norberto Santos, Pedro Chamusca, Eduardo Brito-Henriques

O turismo, não é necessariamente fator suficiente para o desenvolvimento local, mas pode, com a orientação certa, centrada em processos de gestão participativa, como acontece com a boa governança entre o setor público, o setor privado, a academia e a comunidade local (quadruple hélice), ser o organizador e criador de processos, inovações, investimentos e atividades que promovem os territórios, a cultura, a qualidade de vida, as contrapartidas económicas e a imagem dos lugares, tão importante num mundo globalizado. O turismo é, de facto, uma atividade económica com expressão significativa no quotidiano das populações, mesmo daquelas que não viajam. Esta realidade reflete-se no território e obriga a boas práticas de gestão da capacidade de carga, lidando com situações entre a importância do aumento do tempo de estada, para valorização da sustentabilidade económica, e o overtourism, ajustando a procura, de forma a permitir melhores condições de vida aos residentes e uma sustentabilidade ambiental sistémica, fundamental para a promoção dos lugares.

Nesta perspetiva o património cultural e a criatividade ganham cada vez maior projeção, com os territórios a agilizar a utilização da sua herança cultural e a promover o aparecimento de indústrias criativas para enriquecer a experiência turística. Esta valorização do património, o tangível e o intangível, da história e da cultura, desenvolve a atratividade turística, com uma oferta qualificada, a que se junta a criação de serviços orientados para a população residente, permitindo interpretações smart das práticas de gestão das cidades, das suas áreas de influência e dos territórios, em geral. O Turismo, a Cultura e o Território podem, pois, conseguir definir múltiplas situações win/win porque a presença da cultura potencia o turismo e qualifica o território, promovendo o desenvolvimento, através da sustentabilidade, da inclusão e da diversidade, permitindo benefícios económicos e outros não monetaristas. Para além dos pilares habituais do desenvolvimento sustentável (social, económico e ambiental) esta relação multiunívoca entre Turismo, Cultura e Território, permite definir a cultura como elemento fundacional desse desenvolvimento, especialmente quando existe a vontade política para agilizar esta relação quadrilátera.

As gerações mais jovens, os Millenials (geração Y) e os centennials (Geração Z), conjugam a vontade da viagem com os processos digitais e conseguem tornar mais acessível qualquer informação e qualquer destino turístico, porque, para “existir”, tudo precisa de estar presente no mundo digital, valendo a máxima do pensar global e agir local. Todavia, também os Baby Boomers (me generation) e os Baby Bust (geração X) ganham apetência pela viagem, logo depois de satisfeitas as necessidades básicas, porque o lazer é a atividade que todos querem retomar depois de um período de restrições, como sucede presentemente com a pandemia da COVID 19. Com o centrar da oferta nas motivações, mais do que nos produtos turísticos, os territórios e a cultura ganham especial significado, fazendo as experiências, a participação e as ofertas criativas enorme sentido no mercado turístico, dando importância ao turista prosumer e ao carater holístico da procura.

Todos estes assuntos serão merecedores de análise e discussão no Eixo “Turismo, Cultura e Território” com temáticas que versarão também as oportunidades de diversificação das economias locais, o incremento da oferta de emprego, a atração do investimento, a valorização integrada dos recursos (naturais e culturais), o desenvolvimento de novas tecnologias de informação e comunicação, a melhoria de acessibilidade e os ganhos de inclusividade. Podem, ainda, ter presença outras análises e interpretações que vejam o turismo como menos positivo para os territórios como os exageros na exploração dos recursos, os impactos no ordenamento devido a violações de restrições ambientais, a menorização da gestão participativa, a inflação de preços resultante de aumento da procura e a própria sazonalidade da atividade turística, um fator sempre dual.

Carlos Ferreira, João Figueira de Sousa, Nuno Marques Costa

A uma agenda já de si dinâmica pela crescente abrangência e relevância dada a temas de mobilidade – reconfigurando o campo de investigação e fazendo emergir um paradigma de ‘novas mobilidades’ (Sheller & Urry, 2006) – o contexto pandémico atual e a incerteza quanto às mudanças que se venham a operar, aduz uma responsabilidade acrescida à comunidade geográfica. Esta deverá refletir e produzir novo conhecimento, que dê respostas aos novos desafios que se colocam aos territórios.

Reconhecendo o papel central dos transportes, acessibilidades e mobilidades na capacitação dos territórios para um desenvolvimento mais sustentável e inteligente, este Eixo pretende acolher trabalhos num vasto campo de investigação relacionado, entre outros tópicos, com:

  • Mobilidades quotidianas
  • Mobilidades para fins recreativos
  • Pandemia e (i)mobilidades
  • Mobilidades inclusivas
  • Novos padrões de mobilidade
  • Mobilidade como serviço (MaaS)
  • Políticas públicas no setor dos transportes e das acessibilidades
  • Tecnologias de informação e mobilidade
  • Gestão de infraestruturas e serviços de transporte

João Luís Fernandes, Anabela Boto, Sérgio Cláudino

A socialização do pensamento e do conhecimento geográfico é realizada, desde logo, nas escolas. Para multidões, a Geografia confunde-se com a memória dos “stores” da disciplina cujo nome mal fixaram e daqueles manuais com muitas fotografias e gráficos, guardados agora nem se sabe bem onde. A Geografia foi, sobretudo, memorização, às vezes até agradável, porque de descoberta do país, da nossa Europa e do mundo. Dificilmente o contributo da educação geográfica para o reconhecimento institucional e social da ciência geográfica poderá ser ainda superior.

A institucionalização da Geografia na primeira metade do século XIX, nos ensinos básico e secundário (1835/36), precede claramente a sua afirmação na Academia, no começo do século XX (1901/04). A Geografia surge na universidade no âmbito de uma reforma diretamente associada à necessidade de formar professores de uma disciplina já com 70 anos de prática escolar e que, entretanto, atingira o seu apogeo – concretizado na sua (difícil) autonomização de História (1888/89). Já no presente século, a Geografia teve de lutar pela manutenção desta autonomia, no âmbito da legislação sobre formação inicial de professores (2007/2014). O ensino de Geografia continua, afinal, a enfrentar o desafio da sua pertinência e do seu reconhecimento no sistema educativo.

Quando se discute o compromisso da Geografia na construção de territórios em mudança, afirma-se a expetativa de que a educação geográfica renove o seu protagonismo e contribua para a projeção da ciência geográfica e dos geógrafos. Num país que, em 2017, definiu uma Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, impõe-se formar jovens cidadãos atentos e interventivos na construção de territórios mais harmoniosos e sustentáveis. É a cidadania territorial que surge no horizonte da disciplina de Geografia que chega aos jovens, às famílias e à sociedade, neste começo de um decénio profundamente marcado pelo inesperado e pela necessidade de dar respostas inovadoras e esclarecidas na (re)construção das nossas comunidades. Que excelente desafio para a nossa reflexão.

Temos muito que discutir sobre Pensamento Geográfico e Ensino de Geografia.